quinta-feira, 17 de abril de 2014

Começando uma horta

Começo este novo blog com este post que já foi publicado no meu outro blog, o Come-se. Porque explica um pouco por onde tudo começou. Portanto, depois do traço, é tudo repeteco, tal e qual está lá:
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Hoje tem coluna Nhac no Paladar. O assunto hortas comunitárias está na boca do povo. Veja lá no blog do caderno: http://blogs.estadao.com.br/paladar/terreno-vazio-horta-nele/ e aqui o texto todo.

Terreno vazio? Horta nele! 


Cultivar e cozinhar são atividades inseparáveis do ser humano moderno, sem as quais voltaríamos ao Paleolítico dos comedores de caças e bagas de frutos.  O problema é que nos acostumamos recentemente a delegar estas tarefas a tal ponto que perdemos a intimidade com elas. Menos com o cozinhar, mais com o plantar.

Na edição passada do Paladar, Cozinha do Brasil, entre aulas com chefs e especialistas, uma atividade externa se destacou pelo ineditismo apesar do pertencimento primordial ao cenário gastronômico. Foi a visita à horta comunitária da praça das Corujas, na Vila Madalena.  Os interessados saíram do conforto do hotel Hyatt e foram levados para ver uma experiência de sucesso encravada num bairro residencial de São Paulo.  Até nascentes o grupo  conseguiu recuperar.   Que a maior parte dos alimentos que comemos sai da terra, todo mundo sabe, mas pouca gente tem a chance do contato próximo com este substrato profícuo e essencial.  E entre nós já há quem não consiga mais meter as mãos na terra com tranquilidade. Ai, os micróbios. 

A ocupação de espaços públicos ou coletivos por hortas ou jardins de plantas úteis têm sido tendência no mundo todo por várias razões, entre elas para se falar de recursos naturais como a água, das sementes crioulas, dos orgânicos, da produção de alimentos locais e de cultura gastronômica. Ou simplesmente como uma forma de reação gentil a um mundo nas metrópoles com hostilidades de todos os tipos.  

Para além de cultivar algum alimento ainda que de forma lúdica ou didática,  as hortas têm sido uma verdadeira lição de cidadania, de convivência entre vizinhos que mal se conheciam e de aproximação com pedestres incógnitos, deixando a cidade mais segura e agradável.  Parece que quando estamos com as mãos ou cabeças ocupadas com terra e plantas nos despimos e o mundo à nossa volta se modifica, se despe também. Chegam palpites, receitas e conversas à toa.  Sem nenhum desmerecimento aos profissionais da cabeça, não há participante que não repita que mexer na terra é como terapia.  Pode ser parte dela, por que não?

No Paladar,  alguns chefs saíram do evento animados com o tema e com o desejo de cuidar de uma horta coletiva próxima ao restaurante. Não sei se levaram a ideia adiante.  Pelo menos eu me empolguei bastante e, junto com vizinhos, tenho arregaçado as mangas para colocar em prática uma horta comunitária.  E participo de outra que está começando na Faculdade de Saúde Pública da USP, onde me formei em nutrição anos atrás, antes um lugar tão sisudo de jardim intocável. 

Recentemente o coletivo “hortelões urbanos” que agrupa ativistas e simpatizantes num grupo do facebook vem agitando a cidade e incitando cidadãos a ocupar espaços públicos negligenciados com hortas. 

Claro, a recepção de alguns moradores nem sempre é feita de delicadezas como de um que traz um suco gelado, outro que faz um bolo, cede a água ou puxa uma cadeira para ficar perto e dar apoio moral. Há gente que já chega gorando. Cheguei a ouvir absurdos do tipo:  “Chi, não vai dar certo. Logo a baianada descobre e não vai sobrar nada”.  Ou falam dos possíveis bichos que passarão: “Não dá pra plantar nada de comer aqui, porque passam ratos, gatos de rua, cachorros, pombos e gente suja”.

Aí temos que lembrar que baiano adora plantar. Tom Zé que o diga, afinal o compositor de Irará-BA,  cuidou do jardim do seu prédio durante anos. Baiano, paulista, cearense, goiano, paranaense, tanto faz, é gente que gosta de cultivar,  sente saudade de sua terra e quer deixar seu espaço mais cheio de graça.  Aliás, desconfio que este movimento de hortelões urbanos começou quieto sem que ninguém percebesse com os guardas de rua das grandes cidades, geralmente migrante, na tentativa de trazer um pouco da sua roça para onde está. No meu bairro você vai andando e logo se depara com uma guarita rodeada com o resumo da fazenda: cana, de mandioca, coentro, pimenta, feijão de corda, erva-cidreira, maracujá e até pé de milho. 
Na Horta das Corujas

E lembrar também que o que compramos no supermercado não é mais limpo que o que cultivamos nas hortas coletivas.  A alface embalada em saco plástico não foi cultivada em ambiente estéril e ainda deve ter recebido banhos de pesticidas até chegar à nossa mesa.  Teme-se a contaminação biológica dos espaços  públicos mas esquece-se da contaminação química da agricultura de grande escala, cujos efeitos adversos são mais violentos e virão a longo prazo.  Então, não nos contaminemos com a indisposição e pessimismo e mãos na terra.


Caixa de jataís na horta das Corujas 
Algumas dicas para quem quer começar a plantar:

Entre em contato com outras pessoas que pensam como você. Elas lhe darão muito mais dicas. 


Comece entrando no grupo Hortelões Urbanos, no facebook.

Se você tem um espaço onde plantar, seja um terreno baldio no seu bairro, um pedaço de praça ou no jardim do seu prédio, saiba que terá muito trabalho mas também muito apoio. Nunca comece este projeto só. Chame pelo menos mais uma pessoa para andar junto, convidar outras, panfletar, chamar para reuniões.

Avalie as condições do local e luminosidade e  escolha espécies adaptadas a elas.

Plantas alimentícias não convencionais podem ser um bom começo pois são mais rústicas e exigem menos cuidados.

Se não tiver como regar constantemente, plante ora-pro-nobis, bertalha coração e ervas aromáticas como manjericão, alecrim, tomilho.

Prefira plantas arbustivas ou mais altas em vez das rasteiras se não tiver como cercar o espaço. Alguns exemplos: pimentas de árvore, taiobas, louro, folhas de caril, alecrim.

Se puder fazer uma composteira no local, ótimo. Do contrário, incentive os participantes a manter um minhocário em casa e doar o húmus para a horta.
Em local sombreado plante taiobas e hortelãs.

Se conseguir envolver os vizinhos imediatos do local, a rega será facilitada para o caso de não haver torneiras. E, claro,  captar água da chuva é sempre desejável.

E se puder coloque no meio da horta uma caixinha de abelha nativa sem ferrão como a jataí.

E aproveito, agora só aqui no blog, pra relembrar dois posts sobre os banquinhos da praça.
 http://come-se.blogspot.com.br/2011/04/uma-praca-uma-arvore-e-um-banquinho-que.html e http://come-se.blogspot.com.br/2011/04/um-banquinho-limpo-pra-se-sentar.html 

2 comentários:

  1. Ótimo texto Neide, adoro ler o que vc escreve e muito bem dito " teme-se a contaminação biológica...mas esquece-se da contaminação química.." é isso ! beijos. já passou da hora de vc vir conhecer a nossa horta da Pompéia, venha !!

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  2. Adoro seu blog, li todas as postagens ontem e hoje e sempre visito sua horta!

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